Caminhada de Cura


Os povos indígenas interpretam a cura como uma conseqüência da
relação harmônica do homem com a natureza. A cura, nesta ótica, não
significa a supressão imediata dos sintomas ou a resolução, instantânea,
dos desequilíbrios que provocaram a desconexão do homem com o Todo
sagrado e universal.
Ela pode ser até o simples reconhecimento dos potenciais internos
de transformação de cada um, mas, com certeza, representa sempre uma
nova oportunidade. Curar-se é desapegar-se do medo.
Aliás, o contraponto do amor não é o ódio, mas o medo que nos
impede de nos entregarmos de forma plena e inteira, de deixarmos fluir
o ciclo da vida e das relações. Em todas as tradições xamânicas os
processos de cura se realizam por meio de desapego, perdão, liberação e
amor.
"Para encontrar uma forma de cura especial, que pudesse
responder a um desafio ou a um problema pessoal, nossos ancestrais
caminhavam com freqüência pelas florestas ou sobre os rochedos das
montanhas em busca de indicações ou sinais que pudessem auxiliá-los
na cura e na sua busca de Sabedoria. Esta Caminhada de Cura constituía
um meio de restabelecer os laços com os seus Guias, ou Ajudantes de
Cura. Mesmo em nosso mundo agitado de hoje é possível encontrar este
Caminho de Cura, se o buscador se dispuser a ler e a entender os sinais
da natureza." (Jamie Sams, in Sacred Path Cards: The Discovery of Self
through Native Teachings).
Um dos instrumentos de cura usados pelos povos indígenas do
Norte e do Sul é a Roda de Medicina, também chamada de Elo Sagrado.
Armada a Roda, estabelece-se um ritual de poder no qual são utilizadas
as energias das Quatro Direções, dos animais-totens, das pedras e
cristais, dos quatro elementos (Terra, Água, Fogo e Ar) e toda uma vasta
simbologia que nos conecta com as forças cósmicas da Criação e da Cura.
Na Roda de Medicina — uma antiga e poderosa representação do
Universo —, podemos identificar o poder dos símbolos e da necessidade
de estarmos conectados e harmonizados com todas as demais
manifestações de vida existentes no Planeta: os seres alados, os quatro
pernas, os rastejadores, os seres das águas, o povo-em-pé, o povo pedra,
o povo nuvem...
O que nos permite manter a conexão com toda a família planetária
é a nossa intuição. E é por meio dela que alcançamos o dom da cura para
nossas vidas, utilizando este poder pessoal e os recursos da imaginação.
Ou seja, a capacidade de acessar as outras realidades, além desta que
vivemos diariamente na nossa vida de cidadãos comuns.
O poder de cura está dentro de nós. Se buscamos o silencio, o
estado de meditação, se procuramos nos ouvir e conseguimos escutar a
nossa alma (aqui entendida como Animal de Poder, a energia
responsável pela manutenção do corpo físico, da saúde e do bem-estar),
saberemos o que é preciso fazer para deflagrar o processo de cura que
necessitamos neste ou naquele momento. Quando não nos sentimos
fortes o suficiente para agir, podemos buscar o auxílio de um curador
para que, por meio de rituais, nos devolva (como pode acontecer nos
casos de debilidade extrema) ou nos auxilie a reencontrar o espírito do
nosso animal, possibilitando-nos a condição de reagirmos para que,
assim, possamos realizar a nossa própria Caminhada de Cura.
"As Criaturas vivas possuem suas próprias mensagens de Cura e
estão dispostas a partilhá-las com todos aqueles que se dispuserem a
aprender a sua linguagem. Hail-lo-way-ain — a linguagem do Amor, na
língua Seneca — é a forma pela qual Todos os Nossos Parentes se
comunicam conosco. É pela Hail-lo-way-ain que nossos corações podem
sentir as respostas recebidas do Caminho da Sabedoria e que o processo
de Cura pode começar a se manifestar." (Jamie Sams, obra citada).
Os verdadeiros curadores reconhecem e sabem que o poder do
amor é a mais poderosa energia de cura que o ser humano pode acessar
com facilidade, pois está dentro de cada um. O curador, em muitas
tradições, é definido como aquele que estende os braços do amor e está
atento ao que tem coração e significado. O coração, para muitos povos
nativos, é a ponte de ligação entre o Pai Céu e a Mãe Terra, além de ser o
caldeirão alquímico onde se misturam emoção e pensamento e se
transmutam sentimentos.
A cura também envolve "o princípio da reciprocidade, a
capacidade de igualmente dar e receber, e a capacidade de vincular-se.
Para mantermos nossa saúde e bem-estar necessitamos manter o
equilíbrio entre crescer e receber e reconhecer quando um dos pólos está
mais desenvolvido que o outro (...) O princípio da reciprocidade
monitora o equilíbrio existente entre nossa natureza de amor e de
saúde", pondera a antropóloga Angeles Arrien, Ph.D., na sua obra The
Four-fold Way — Waiking the Paths of the Warrioi; Teacliet; Healer and
Visionary.
Todo processo de cura passa, necessariamente, pelo coração. Quer
seja do curador ou do curando. Sem isso, é impossível acessar as forças
curadoras e curativas que o Universo disponibiliza para nós. Sem um
coração íntegro e limpo é impossível encontrar a cura ou auxiliar no
processo curativo de outrem, pois curare penetrar um momento
transcendente e atemporal no qual se experimenta o Poder Divino. E este
poder se expressa e se manifesta na capacidade de amar e entender as
nossas relações com tudo que é vivo e não-vivo na Criação.
O curador verdadeiro é aquele que consegue expressar o ser em
toda sua plenitude e que aprendeu a importância do "curar a si mesmo"
no caminho da responsabilidade sobre si, compreendendo seus limites e
responsabilidades, reconhecendo que é parte do Todo e, portanto, coresponsável
pela doença ou cura do planeta e seus habitantes.
Desta maneira o curador ajuda a quem o procura a enxergar seus
bloqueios e ver a potencialidade que possui de transmutá-los. É função
do xamã estimular o "doente" a mudar o seu padrão sutil, abrindo-se
para a cura verdadeira que inclui compreensão, vontade e aceitação.
O princípio da cura prega a necessidade de harmonia, equilíbrio,
para se alcançar o bem-estar. Tudo aquilo que ajude o ser humano a se
harmonizar com as demais manifestações de vida no Planeta, permita a
sua integração com o ecossistema e auxilie no processo de adaptação dos
corpos físico, emocional, mental e espiritual representa uma medicina.
Os xamãs possuem quatro medicinas principais: cura, acesso a
conhecimento novo ou perdido, desenvolvimento do poder, profecia ou
predições. Apesar de terem conhecimentos de todas elas, costumam
concentrar-se em uma a fim de conhecê-la mais a fundo.
Cada processo de transmutação e cada curador traz a sua medicina
própria. E todos os nativos se referem a medicina como o conjunto de
elementos desse processo e a forma como eles são utilizados por
determinado xamã.

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